quarta-feira, 9 de maio de 2018

CARA-UNICÓRNIO


CARA-UNICÓRNIO. HQ escrita e desenhada por Adri A. ( @caraunicornio ), realizada através de financiamento coletivo no Catarse, conta a história de um jovem que, após ser chifrado por um unicórnio radioativo, passa por severas transformações, se tornando em um - tcharããã... - Cara-Unicórnio. Acompanhamos, então, o surgimento e a ascensão (?) de um herói que não sabe exatamente como ser herói, mas sabe o que é ser diferente e, por isso, se sente compelido a lutar pelos oprimidos.
Não tem experiência na arte de salvar pessoas, mas tem muita vontade de ver todos bem e, por isso, age sem pensar duas vezes, tudo em prol dos que precisam.
Adri A. utiliza todos os clichês tão conhecidos por todos nós [até por quem não acompanha quadrinhos] e transforma em algo engraçado e estranhamente original. Trabalha temas delicados envolvendo preconceitos [principalmente com a comunidade LGBTQ+] de forma leve, porém séria e sem perder a força de nos fazer refletir.
Diversão, diversidade, tolerância, exposição de preconceitos, ação, trapalhadas e percalços são o cerne das aventuras que acompanham esse herói que usa tons rosa e roxo e que veste a cueca por cima da roupa. Mas não tem poderes e muito menos solta arco-íris pelo bumbum [parece ser uma informação importante. rs].
Uma ótima pedida para quem quer conhecer um novo herói 100% nacional.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

CHAPEUZINHO OU VERMELHO


“Pela estrada afora eu não vou sozinha, pois o leitor me faz companhia”.
Essa é a canção que Chapeuzinho deveria cantar em “Chapeuzinho OU Vermelho”, zine-game lançado pelo selo cearense Netuno Press.
O leitor não só acompanha a heroína como a encarna e toma todas as decisões em seu lugar. Escolhendo quais caminhos seguir e o que fazer diante de certas situações, você, leitor, é a Chapéu e a Chapéu é você.
Tudo de um jeito muito empolgante e intuitivo.
*
Fazer a releitura de um clássico, ainda por cima gamificado, pode não ser novo, mas é bem arriscado, porém, Márcio Moreira entrega um trabalho bem feito e divertidíssimo.
Além de fazermos as escolhas da personagem principal, “Chapeuzinho OU Vermelho” é um livro-jogo bem-humorado, com expressões descoladas e situações comuns, o que nos aproxima mais da obra e nos faz realmente sentir que somos a protagonista.

“Chapeuzinho OU Vermelho” ainda conta com uma galeria de ilustradores, entre eles, Débora Santos e Talles Rodrigues, que emprestaram a sua interpretação para diversas situações pelas quais passou a intrépida heroína. Ou seria, situações pelas quais VOCÊ passou?

GALERIA DE ARTISTAS CONVIDADOS

Vale ressaltar o ótimo acabamento do zine, papel de qualidade, boa impressão e encadernado de maneira artesanal.
Agora, que tal pegar a sua cestinha, vestir a sua capa e visitar a vovó?

NETUNO PRESS NAS REDES SOCIAIS


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

ARVORADA


EM "CHICO BENTO - ARVORADA" (título com duplo sentido, pois refere-se à alvorada (crepúsculo) - no jeito caipira de pronunciar -, e arvorada (arborizar)), a efemeridade é a essência dessa graphic. É o que conduz a história. Tudo é efêmero. Seja a alegria ou a tristeza.
Após perder a flora do ipê daquele ano, Chico é advertido por sua avó sobre a efemeridade das coisas. Com essa lição, o garoto aprende a olhar com mais cuidado para tudo ao seu redor. Passa a aproveitar cada momento seja de lazer ou seja trabalhando na roça como algo único de prazer e de aprendizado.
Mesmo aproveitando cada instante, ele não vê a hora de chegar a próxima arvorada do ipê, para apreciar tal espetáculo da Natureza acompanhado da Vó Dita. Porém, quando o momento chega, vó Dita adoece e o médico prepara a família para o pior. Agora, naquele momento que pode ser o último com sua avó, Chico anseia pela alvorada, pois acredita que o novo dia que está para nascer será diferente.
Enfrentando a possibilidade de uma nova perda (há uma referência à história clássica da morte de Mariana, a irmãzinha de Chico), Chico segue sempre colocando em prática tudo o que aprendeu com vó Dita.
E, depois, enfrentando até o sobrenatural, o garoto só deseja que a sua vó melhore e fará o que estiver ao seu alcance para protegê-la.
Como não poderia deixar de ser nas histórias do Chico, a família é o ponto de partida e de chegada.

Difícil apontar uma única página/diálogo preferida(o). A primeira vez que li, estava dentro do ônibus e não consegui conter as lágrimas, chorei ali mesmo. E chorei novamente nas duas vezes que reli.
Sidney_gusman acertou mais uma vez na indicação do artista que criaria essa incrível graphic novel MSP. Desenhada e escrita por Orlandeli, ARVORADA nos apresenta um drama denso, delicado, belo e emocionante.

terça-feira, 2 de maio de 2017

RIFLE

Quando começou a tocar os primeiros acordes da melodia, rapidamente as lágrimas se formaram em seus olhos, e antes mesmo da canção chegar ao segundo verso, elas já rolavam pelo seu rosto.
Gostava daquela canção muito antes de conhecê-la. No entanto, foi ao lado dela que ganhou um sentido.
Não que significasse algo da história deles. Não era isso. Era mais aquele lance em que os astros se alinham e, pah!, de repente, a música abarca tudo. Do princípio até o fim.
E, agora, sem ela em sua vida, surgia outro significado.
Ouvindo e sofrendo com cada palavra daquela balada, ele também queria ser jovem e fugir da cidade; enterrar os sonhos sob o chão; beber até morrer.
Queria uma arma de caça para abater a maior das feras: a dor.
Se estivesse ali, ela responderia que a maior das feras era ele mesmo e a sua podridão. Ele gritaria – pois era o que sempre fazia – tentando convencê-la do contrário, porém, lá dentro dele, assentiria. Concordaria com tudo e se declararia o rei das feras.
E, assim, estava aberta a temporada de autocomiseração.
Sentiu-se no mais absoluto clichê: a música tocando, ele chorando, o copo de bebida na mão.
Chuva... Faltava chuva. Para ser um clichê total, precisava de um temporal caindo lá fora. Porém, aquela época do ano era sempre seca. Não iria chover. E deus algum iria atender esse capricho dele para alimentar ainda mais o seu espetáculo de vitimismo.
Queria chuva e como não tinha, chorou por isso. Chorou porque a bebida estava acabando. Chorou por causa da canção. E, por fim, chorou porque sentia saudade dela.
Um completo e medíocre clichê.
Conversou mentalmente com ela, tentou justificar o injustificável. Pediu desculpa. Mandou se foder. "Maldito elefante!", gritou. E cantou e bebeu e chorou.

Com a música chegando ao final, ele já se preparava para pressionar o repeat. Precisava chorar um pouco mais.

sábado, 1 de abril de 2017

JESUIS

ESTE É O EVANGELHO DE JESUIS.
Sim, é "Jesuis" mesmo! Com um "i" depois do "u", por erro de pronúncia do pai e de compreensão ou bom senso do tabelião no ato do registro. E assim ficou.
Jesuis até gostava. Se sentia especial, apesar do seu nome ser parecido com o nome do Filho do Mandachuva, era único ao mesmo tempo.
Gostava de pensar que guardava outras semelhanças com o Dito Cujo: era magro, alto, barba e cabelos longos. Negro como a noite, adorava dizer que o Outro também não era branco e muito menos tinha olhos azuis. E sempre que entrava nessa discussão com alguém, dizia: "Eu sei o que 'tou falando, rapá. Carrego um nome parecido porque sou chegado do Cara! Ele era negão, sim!", daí, soltava a gargalhada mais estrondosa que podia.
No entanto, Jesuis, diferente do quase homônimo, não resistia à tentação alguma. Ao menor sinal de desejo, se jogava. Se lambuzava e repetia.
Talvez, tivesse só mais uma semelhança com o Escolhido: Jesuis levou muitas mulheres e homens ao Paraíso também.
O meio é que pode ser considerado controverso: Diziam que tinha um pau enorme e grosso e sabia fazer um bom uso dele. Impossível não chegar ao Paraíso depois de provar do que o Cristo Negro oferecia.
Sem distinção de gênero, não importava quem, o que ele gostava mesmo era do prazer que sentia e proporcionava. Em alguns casos, gostava também do dinheiro que recebia de mulheres e homens gratos pelas horas que passavam com o tal.
***
Voltando 33 anos, na noite de Natal, nascia Jesuis - daí o seu nome. Só não foi entre cordeiros, vacas, pastores e reis magos. E sim, ratos, baratas, mosquitos e bem possível, sapos. Jesuis nasceu numa palafita. Mal sua mãe sentiu as dores do parto e lá estava o infante estreando no mundo. Sem paciência para esperar.
Foi o único sobrevivente entre outras crianças que nasceram à época. Não teve Herodes para mandar matá-las. A fome, o cólera e tantas outras doenças e situações se encarregaram disso. E ele, resistiu, mostrando que seria um sobrevivente. E assim levaria a vida, sobrevivendo.
Rápido como pensamento, o garoto corria pelos pedaços de madeira que ligavam as casas umas às outras e que levavam à terra firme com uma desenvoltura quase assustadora.
Isso o ajudou a fugir das surras constantes do pai quando chegava bêbado em casa; e as da mãe, quando ele ia mal na escola. Por sinal, abandonou tal instituição muito cedo. Não era lugar para ele.
Muito cedo também, percebeu que ia ter que se virar. Ou arranjava "uns corre" pra si ou ficaria para trás.
Contra todas as estatísticas, foi crescendo e sobrevivendo.
Nunca se associou diretamente ao tráfico. Mas transitava pelo Movimento quando necessário.
Preferia sempre pelos pequenos delitos. Coisas com que poderia lidar sozinho e sempre passar despercebido. Alguns pequenos golpes também eram bem-vindos.
Qualquer coisa que fosse considerada ilícita, certeza que Jesuis tinha algum envolvimento.
Porém, de uns tempos para cá, ele vinha diminuindo a frequência dos seus crimes. Estava apaixonado. Não se sabe se por obra do destino ou do seu Xará, o pilantra conheceu uma moça chamada Madalena, e já havia se encarregado de fazer da mesma a mãe do seu futuro rebento. E, por isso, até havia arranjado um emprego em uma oficina de motos.
No entanto, foi a proposta de um sujeito com nome de anjo que trouxe Jesuis até aqui. Não, não foi Lúcifer.
Gabriel.
O Gabriel disse que seria grana fácil. Normalmente, Jesuis teria recusado, pois sempre suspeitou de grana fácil. Os seus pequenos golpes e delitos, apesar de pequenos, eram muito bem arquitetados. Ele prezava pelo empenho. Grana fácil, para ele, era sinônimo de problema à vista.                       
No entanto, o Anjo apareceu no pior momento para Jesuis. Com Madalena prestes a dar à luz, Jesuis queria sair das palafitas. Não queria que o seu pequeno e mais sincero milagre nascesse e crescesse nas mesmas condições que ele.
Então, topou o projeto: roubar a casa de um figurão qualquer. Muito dinheiro. Grana fácil.
Chamou dois companheiros para a empreitada e foram.
Mal entraram na casa e um alarme silencioso disparou e todo entorno da residência já estava cercada por seguranças. Com o figurão e a família trancados em um quarto do pânico não daria nem para barganhar as próprias vidas com reféns.
Os seguranças particulares - todos policiais de folga - eram táticos e rápidos. Entraram na casa, desarmaram os invasores, surraram-nos e os levaram para um matagal.
Os bandidos sequer viram o dono da casa.
Gabriel não soube do fim dos bandidos e os mesmos não tinham muito a dizer sobre ele para os seguranças. Apenas o nome.
De nada servia.
Agora, Jesuis jaz no chão com um tiro no meio da testa, o sangue espalhou por toda cabeça coroando o Rei dos Pilantras.
Mas ele não está sozinho. Gera, o segundo ladrão, está caído ao seu lado esquerdo.
Agora chegou a minha vez, termino o Evangelho de Jesuis segundo eu mesmo, Dimas, o terceiro ladrão. E logo estarei caído ao seu lado direito e, ainda hoje, estarei ceando com ele no Reino dos Céus dos Pilantras.

Amém.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

BIDU: JUNTOS

MAIS UMA GRAPHIC MSP pra encher os olhos! Seja pela beleza, seja pela emoção que causa! Trabalho belíssimo de Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho com os personagens de Maurício de Sousa.
Se na primeira Graphic do Bidu - trabalho também realizado pela dupla citada acima -, nós acompanhamos os caminhos (por sinal, é o nome que batiza a HQ) que os dois percorreram até se encontrar, em "Juntos", veremos os dois, juntos, porém, separados (rs), cada um ao seu modo, tentando se adaptar a essa nova condição que une os dois: dono e pet (embora, eu sempre acho qu'é o contrário, o pet é qu'é o dono da gente. rs).
O Franjinha tem um papel maior nesta HQ. Vemos o seu lado científico - sua maior característica - em prática numa tentativa determinada de conquistar e "educar" o cachorrinho, porém, sem perder a beleza de ser criança e, às vezes, agir como uma.
Bidu, também do seu jeito, tenta viver essa nova vida, não sem antes ficar triste e bravo por certas condições impostas por Franjinha a mando de sua mãe que a muito custou aceitou o bicho, mas tem suas reservas devido o comportamento "rebelde" de Bidu.
Como sua antecessora, Caminhos, Juntos utiliza imagens para dar fala ao Bidu e faz isso com muita competência deixando pra gente a interpretação.
Algumas participações especiais dão um toque especial que nos faz suspirar.
Não sei se já ter convivido com um animal de estimação fará alguém apreciar mais essa graphic. Ela, por si só tem tudo para ser aplaudida. Acredito que basta ter sensibilidade. Afinal, é uma bela história que, como quase todas HQs da Maurício de Sousa, fala sobre amizade, amor, responsabilidade e as dificuldades que temos sobre a vida daqueles que nos cercam e que só conseguimos seguir em frente se formos juntos.